A vida segue... na varanda

 
Já tem quase um ano, esta foto aí ao lado. Nós quatro, sábadão, um delivery para animar a rotina e nossa varanda bagunçada. Eu queria ter escrito mais naquele momento, março para abril de 2020, para hoje poder relembrar como eu no fundo achava que hoje, quase um ano depois, estaríamos diferentes. Estaríamos mais livres da nossa varanda.

Mas não.

Ironia do destino ou não, de novo o mês de março assola esse nosso Brasil com a pandemia do Coronavírus, seguimos sem pulso e firmeza dos que estão no comando deste país, e voltamos a ter que nos fechar mais e mais nas nossas varandas. Desta foto até hoje eu tive muitos momentos como esse, com meu universo particular, de valor incalculável, feito por estar junto do meu marido amado e dos meus filhotes luz da minha vida, e apesar de todo cansaço com o que estamos vivendo eu não deixo de agradecer o tanto que esta varanda nos permite seguir aguentando.

Eu sofro demais por tudo que estamos perdendo. Por tantos momentos que estamos deixando de compartilhar, por tantas vivências que Paulinha e Luismi não estão podendo concretizar, por tantos valores que estão se esvaindo a cada dia e a cada momento em que alguém deixa de seguir os protocolos de isolamento e distanciamento social. Mas eu também me sinto impelida profundamente a agradecer, agradecer por ter no meu universo particular o meu maior tesouro e o meu maior suporte. Temos nossa rotininha de final de semana: sábado e domingo só contamos com os filhos depois das 13h, antes eles estão dormirndo porque podem madrugar na noite anterior. O almoço destes dias é sempre especial, uma gostosura para compensar os cuidados com a alimentação da semana. Eu faço a siesta todo sábado, ahhh, que delícia, e depois que um deles consegue me acordar (em geral o Luismi, que é o único que tem paciência de ficar insistindo para eu acabar com a siesta) vamos para nossa jogatina.

Alhambra, Mysterium, Azul, Perfil, Buraco... tantos jogos, tanta coisa, todos juntos. Nunca gostei de jogo, sempre fugi deles depois que o Migui acabou pegando para si as jogatinas com os dois, mas a quarentena me fez voltar de cabeça ao jogo de tabuleiro, primeiro pelos amigos e amigas Primavera, mas agora por minha família, que encontra naquelas horas entre nós um momento de não pensar em nada, só em peças, cartas, pontos e algum que outro grito porque às vezes a jogatina fica quente.

À noite é hora da Paulinha preparar a janta, outros dias é o Migui, e nosso cardápio vai se recheando das especialidades que os dois vão descobrindo a cada dia. E a cada domingo temos ali nosso momento em que cada um dos quatro vai para seu canto, ver suas bobagens, suas coisas, porque somos unidos mas todos precisamos de um momento consigo mesmo. "Mamis, fecha a porta." foi a frase que aprendi a ouvir, e ainda que por vezes me sinta estranha ouvindo a necessidade da filha de colocar uma porta entre nós ("ai, Mami, que drama"), vejo que é cuidando do espaço nosso coletivo, mas também respeitando o espaço de cada um, que temos resistido a esta jornada insana de estar há quase um ano na varanda.

É tempo de recolhimento. De pensar, de sentir. É tempo de fazer valer o que acreditamos de verdade. Agora é a hora de cada um responder se de verdade está disposto a se sacrificar por algo maior, que é salvar vidas. Eu procuro não ficar repetindo demais isso para Paulinha e Luismi porque acho que eles precisam sentir-se livres para chorar de tristeza por terem de novo ficado sem a escola, mas por dentro eu repito várias vezes isso tudo, porque precisamos ter força, não aquela só da palavra escrita, força mesmo, profunda, intensa, para suportar tudo isso.

Sigamos...

Comentarios

Rió ha dicho que…
Em 2013 quando do " exílio" , quantas vezes fizemos jogo do contente pra suportar o duro presente? Vamos ao mantra " nada é eterno, mesmo as piores coisa passa, tudo passa..."
Rió, compartilhando sentimentos
Rosana El Kadri ha dicho que…
Sim, querida! Sigamos. Não tenho seu talento para escrever, mas pego uns versos emprestados do Drummond, de mãos dadas seguiremos, ainda que virtualmente. Grande beijo.
"Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças
Entre eles, considero a enorme realidade
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas"

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