A volta para o começo

 

"Nossa heroína veste sua armadura, pega sua espada, escolhe seu corcel mais rápido e se lança à batalha. Então ela encontra seu tesouro: um diploma de doutorado, um alto cargo corporativo, dinheiro e autoridade. (...) Depois de certo tempo aproveitando a vista panorâmica do topo, administrando tudo, o que às vezes inclui carreira e filhos também, pode surgir uma sensação de: "Certo, eu cheguei! Mas e agora?" (p. 26)

Maureen Mudorck, "A jornada da heroína", Editora Sextante, 2022.

    Foi ao ler este pequeno trecho do incrível livro de Maureen Murdock, que ainda estou explorando, que senti um profundo desejo de escrever sobre a experiência de ver-se neste momento da jornada da heroína, neste momento em que sabe-se bem no alto de muita coisa, e algo se quebra e é preciso parar. E no meu caso voltar, voltar ao começo, às minhas sensações mais profundas e verdadeiras que me constituem como educadora. Senti que precisava falar um pouco do que significa voltar para a sala de aula depois de 6 anos fora dela, do que significa sair do conhecido e começar tudo de novo, do que significa quebrar aquilo que era o esperado e começar algo que nem mesmo eu sei o que esperar.
    Nesta minha particular jornada eu tive a sorte de compartilhar minhas dores e minhas certezas com muitas mulheres fortes e firmes (e homens também, mas como são minoria nesta minha história, vou priorizar minhas companheiras rs...), que talvez estivessem vendo com certa preocupação as quebras que eu estava começando a fazer, mas que souberam de alguma forma estar ali, presentes, mas sem entrar no mesmo túnel que eu estava, porque isso seria impossível. Um dia, acho que daqui a alguns anos, poderei conversar com algumas delas para que me digam o que estavam pensando da minha caminhada, das minhas decisões, mas acho que fundamentalmente considero que na minha jornada foi fundamental saber que eu estava sozinha nisso, mas não estava desacompanhada. Que eu precisava decidir por mim mesma, mas que precisava agarrar na mão de algumas pessoas fundamentais para que eu não escorregasse diante do que estava aparecendo na minha frente. E foi aí que veio minha volta a ser professora.
    Eu nunca tive dúvidas de que poderia voltar para a sala de aula, para mim esta sempre foi uma opção bastante clara, e por isso quando este foi o caminho que surgiu na minha caminhada não duvidei nem por um minuto de que voltaria para este começo, para quando comecei minha carreira na educação, que voltaria para a sala de aula. O que eu não esperava era saber quanto eu carregaria de feridas que demorariam bem mais tempo para curar-se, e que eu me veria diante de um sentimento que eu classifiquei como muito arrogante e intolerável quando ele veio: "puxa, eu retrocedi na minha carreira!". Eu sentia aquilo, mas não queria sentir, sabia que era "errado", mas pelo que já li do livro de Maureen, sair da lógica do sucesso e do êxito é algo muito complexo na sociedade pautada pela jornada egóica do herói que precisa conquistar o mundo.

"Nesse trecho da jornada, a mulher começa a sua descida. Pode haver um período aparentemente interminável de ausência de rumo, tristeza e fúria; de deposição de reis; de busca pelas partes perdidas de si mesma e de encontro com o feminino sombrio (...).
O certo é que uma cura ocorre dentro da mulher, à medida que ela começa a acolher seu corpo e sua alma, resgatando seus sentimentos, sua intuição, sua sexualidade e seu humor" (p. 28 a 29)

   Ah, a sala de aula... quem diria que ela seria tão profundamente responsável por minha cura? Estar neste espaço confere sentimentos que só quem está lá entende, mas começo dizendo que o orgulho, a satisfação, a realização que uma educadora sente quando presencia ali, na sua frente, a maravilhosa capacidade do ser humano de saber mais, e mais, e mais, é uma marca que nunca se apaga, e que independente de estarmos ou não na sala de aula, nenhuma educadora deveria esquecer, em tudo o que faz. 
    O curioso disso tudo foi que a minha jornada deste processo de cura, que ainda está em andamento, abriu-se em um lugar, o espaço ekoa, que há tantos anos atrás foi responsável por curar outra ferida tão profunda que eu carregava, relacionada à maternidade... a primeira entrada que esta escola teve em minha vida foi cuidando da Paulinha e do Luismi logo que retornamos da Espanha, em um momento em que eu necessitava muito acolhimento e confiar que existia um lugar especial para meus filhos. Como foi forte este processo! Lembro como se fosse ontem de quando tive que me despedir de lá, das mãozinhas do Lu, de como foi difícil... sem nem imaginar que voltaria depois de mais de 10 anos para me reencontrar.
    Mas voltando para minha caminhada profissional, antes que eu me perca falando desta maternidade que tanto me ocupa, acho que o que mais me mobiliza neste texto é homenagear a sala de aula como espaço de cura, de transformação e de realização. E é sobretudo homenagear as crianças que me fizeram voltar de corpo e alma à docência, as crianças da turma do Manjericão, que sem nem saberem, a cada dia me afastavam da distração dos sentimentos do mundo competitivo e me faziam voltar para aquilo que vale a pena mesmo: aprender. Aprender mais e mais.
    Eu sou dessas de ter datas específicas para as coisas morrerem e nascerem, quem está perto de mim sabe. Em um 12 de abril algo muito profundo dentro de mim morreu, mas em um 14 de abril algo muito especial ressurgiu, o saber-se alfabetizadora. Neste dia eu estava realizando com minha turma uma lista de brincadeiras para a festa junina e um de meus alunos escreveu BOCA DO PALHAÇO completando algumas sílabas olhando firme para mim em cada descoberta dizendo, "ah!!!!! já sei!!!! tem mais essa!". Era a mesma criança que apenas dois meses antes tinha chorado copiosamente diante de um papel em branco dizendo que não sabia escrever, nunca saberia, que só os irmãos dele sabiam escrever... 
    Foram muitos momentos como esse vividos em 2022, mas esse do dia 14 de abril ficou marcado, talvez por coincidir com curas que eu vivia também no plano pessoal, talvez porque apesar de ser formadora em alfabetização, nada te dá maior segurança do que efetivamente voltar a alfabetizar uma criança, mas talvez porque me veio aquele sentimento de: tá aí, Miruna, essa era a volta que você queria, era essa a sua jornada! Voltar ao que faz sentido, à estar e pensar na sala de aula. Foi aí que eu comecei efetivamente a me curar das feridas que me fizeram começar esta jornada.
    Esse texto está bem longo e nem sei quem vai ler até o final (você leu? me avisa!!! kkkkk), mas vou terminar voltando de novo para o começo. Não o começo de tudo, mas o começo do texto, para a foto que escolhi para ilustrar essas palavras de hoje... eu, 41 anos, voltando a pular elástico. Há quanto tempo eu não pulava elástico? No trabalho? Das mãos de um grande parceiro, Marcola, voltei a correr na base 4 e a pular elástico... tem algo mais autêntico do que isso para quem quer saber e entender melhor sua essência? Seu caminho? Enquanto eu saltava as fases combinadas, meus alunos aí da foto iam me dando dicas, dizendo por onde ir, e vibrando com as minhas conquistas... 

"Enquanto se concentra em sua jornada interior, a mulher recebe pouco reconhecimento e menos aplausos do mundo exterior. As perguntas que ela faz a respeito dos valores da vida provocam desconforto naqueles que estão comprometidos com as armadilhas exteriores do sucesso. É por isso que essa jornada exige coragem e a confiança em algum tipo de assistência espiritual" (p. 30)

    Não posso dizer que me faltou reconhecimento nesta minha jornada, porque ouvi de muita gente querida o quanto admiravam a minha decisão, e o maior reconhecimento foi da escola que abriu as portas para minha nova trajetória, porque se não acreditassem em mim, em todas as etapas nada fáceis do processo, não daria para seguir em frente, mas é fato que é difícil conter as ânsias de fazer mais e mais, a angústia que às vezes entra de ver-se como alguém que agora consegue assistir novela (viva "Pantanal" kkkk), e também é fato que vejo muitos caminhos pela frente, que quero construir novas subidas e possibilidades, sim, de estudo, de aprofundamento, enfim, de futuro. Mas antes disso quero registrar e ter muita clareza do quanto nossas jornadas precisam ser autênticas com a gente mesmo, do quanto é árduo sair daquele barco que sobe tão rápido a portos tão seguros, mas que no meio das águas turbulentas parece que as conquistas ficam ainda mais firmes... e é isso, se você fez ou faz parte de quem segurou minha mão, minha enorme, gigante gratidão. Você sempre poderá contar comigo, sempre, sempre!!!!

Ps1: Quero homenagear neste texto meus amados contos de fadas, que me abriram portas para sair das referências mais conhecidas e me apresentaram pessoas lindas, como o Paulo César Ribeiro Filho, que em um grupo de leitura sobre "Sereiazinha" falou da jornada da heroína e me deu o insight de mergulhar mais nesta leitura.

Ps2: Dedico este texto à minha amiga de alma Laís Oliveira. Como eu disse, tive MUITA gente linda comigo nesta trajetória, mas acho que uma das que mais sofreu por mim, e comigo, foi ela. E sem ela, sem a verdade de cada uma de nossas escolhas, eu não teria encontrado sentido para muita coisa. Te amo Lalá!

    
    

Comentarios

Anónimo ha dicho que…
Que lindo!!! Sua experiência fortalece muitas de nós nessa jornada tão solitária.
Obrigada e siga feliz!!!
Anónimo ha dicho que…
Anamaria Mizuguchi
Rió ha dicho que…
Eita, Mimi, tt tempo te falo que vc deveria escrever sobre sua trajetória de educadora. E...de repente vc vem com esse texto, lindo pq nascido do mais profundo do seu coração, reflexão a partir da experiência, alegrias surgidas de dores e,dúvidas , angústias. Vc vai longe, menina, pq é sincera e corajosa. Beijo da Mamis
Jéssica Silva ha dicho que…
Miruna, eu li até o final!
Seu texto conversou comigo...
Voltei para a sala de aula esse ano, após um ano em licença (pela pandemia e nascimento do meu filho) e vivi também a cura através dela, das crianças, das alegrias e dos desafios. Quero ler esse livro e aproveitar mais dos encontros e encantos da escola. Obrigada por partilhar!
Paula Carolina ha dicho que…
Querida chefe preferida,
Que texto lindo!
Retrocesso?!?! Você? Nunca!
Saiba que trabalhar com vc e dividir algumas angústias de mãe e de profissional, especialmente no final de 2021 foi muito importante para minha tomada de decisão também!
Adoro acompanhar seu trabalho e suas conquistas! Admiração sempre!!
Bjs
ana lucia bresciane ha dicho que…
Mi, também li seu texto até o fim... e te agradeço: por se permitir esse retorno (retrocesso nunca!); por aportar aqui no ekoa conosco e, por oferecer o seu porto seguro aos nossos "manjericos e manjericas"! Foi um ano fundamental para nossa primeira turma de Fundamental! Contarei sempre com você, pode contar comigo também! Daqui pra frente teremos muitos elásticos pra pular! ❤️ Beijo , Ana Lu Bresciane
Anónimo ha dicho que…
Mimi. Seu texto me comoveu bastante. Vc é uma educadora onde quer que esteja. Na sala de aula é fundamental. Obrigada pelo texto tão profundo. Bjs da tia.
Anónimo ha dicho que…
Opa! Fui eu que escrevi o comentário. Tia Tonco
Ana Paula Yazbek ha dicho que…
Querida Miruna, senti uma profunda alegria em ler seu texto e que me sinto privilegiada de termos te acolhido duas vezes (no seu retorno da Espanha e agora). Você também me acolheu algumas tantas vezes... quando eu estava machucada por conta do olho da Marina, quando você escreveu sobre ela neste lindo blog... e agora, acolhendo os desafios desta linda escola, que não poderia ter tido melhor professora para receber nossa primeira turma de Ensino Fundamental! Da próxima vez me chame, para pularmos elástico em dupla!
Anónimo ha dicho que…
Li também até o final! Não tem retrocesso, estamos sempre seguindo adiante. Aproveite muito as brincadeiras de elástico! Feliz por nosso reencontro.
Anónimo ha dicho que…
Ops, beijos da Teca
Anónimo ha dicho que…
Continua sendo a jornada da heroína, porque assumir e seguir nossa verdade é um risco! A sala de aula é e sempre deveria ser o alimento da alma de um educador ou educadora. Siga florescendo, querida!

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