Às vezes preencher o tempo é voltar no tempo


Às vezes é preciso que sobre um tempo, ou que você precise batalhar para preencher o tempo, para que você volte no tempo e resgate algo que de alguma forma ficou para trás. Esse foi o pensamento de agora, dentro desse ciclo enorme de coisas que andam passando dentro de mim enquanto Paulinha e Luismi vivem intensamente umas férias longe de casa, longe do pai e da mãe, e perto de tanta coisa que fazem enorme sentido para eles.

Ontem a sensação de que a ausência deles está me fazendo trazer a presença de algumas coisas ficou ainda mais forte. Comecei o dia indo sozinha andar de patins. Duas horas, duas horas inteiras, só eu e eu, e minha meta de 2019 de tentar aprender a andar nessas duas botinhas que parecem tão fofinhas mas que me metem em umas enrascadas de bater a bunda mesmo... e hoje foi a primeira vez que fui sem ninguém para me dar a mão. Claro que pensei demais na Pauli e no Lu porque os patins foram um certo símbolo desse momento, dessa passagem de não mais eu mostrando e ensinando tudo, mas eles se colocando à frente e dando conselhos; os dois, afinal de contas, andam nisso há muito tempo e quase que tanto faz para eles estar  no pé dois ou estar em rodinhas... Os dois têm tentando, uma com um pouco menos, outro com um pouco mais de paciência, me ajudar nessa aventura, sim, porque aprender algo que você fugiu, corporalmente, na infância, não é tão simples assim, e hoje, só eu e eu, fiquei tentando dar um jeito de resgatar as palavrinhas deles ao meu lado. E hoje tentei fazer isso não chorando, ou sofrendo, mas com o calorzinho da presença deles, nas palavrinhas e risadinhas que eles sempre me oferecem quando estamos dando nossas voltinhas... tantas voltinhas.

Tirando as rodinhas do pé vivi outro momento que apenas pelo tempo disponível eu pude viver, que foi reencontrar uma amiga que tanto, tanto tempo já ocupou na minha vida em determinado momento e que a vida de alguma forma precisou nos separar. Sim, você, você sabem quem é. Entre idas e vindas já tínhamos nos visto e nos reencontrado, mas ontem, não sei bem o motivo, eu tive a certeza de que agora sim é um reencontro... talvez pela leveza que eu vi nela, no encontro de um amor verdadeiro, talvez pela minha serenidade de que não preciso cobrar nada mais dela, talvez, simplesmente talvez, porque precisou passar um tempo para nosso tempo voltar. Engraçado que fiquei lembrando que ela foi a primeira, mesmo, primeiríssima pessoa a quem contei que eu tinha encontrado alguém que tinha feito algo estranho comigo. "Preciso te contar uma coisa. Conheci um espanhol, e aconteceu."

Eu fico muitas vezes pensando no que teria sido de mim se naquele momento ela tivesse me julgado pela escolha que fiz, se ela tivesse me pedido para esperar, para ter calma, porque talvez, no mar de dúvidas que eu mergulhei quando conheci o Miguel, se ela tivesse feito isso, talvez eu tivesse parado tudo. Mesmo. E com certeza hoje eu não seria feliz como sou. Eu não teria um grande amor a meu lado, nem teria minha Paulinha e meu Luismi que tanta falta me fazem.

E por isso eu sempre serei grata a esta amiga que soube ver além das aparências. Que não julgou, que não ficou pensando no que dirão, no futuro, nas relações estáveis, alguém que soube que tinha acontecido algo verdadeiro e que tudo o que eu precisava era de apoio e de acolhimento para poder, com ela, elaborar o que estava acontecendo. Foi por ter me dado força, você, que eu tive coragem e vivi a minha história com o Miguel, e tudo o que veio depois. O depois incluiu coisas minhas, e envolveu que nós duas nos afastamos, e talvez neste tempo longe faltou justamente isso que ela teve quando contei do Miguel: menos pensar e mais sentir. Não importa. Foi isso que aconteceu e a vida é feita de recomeços.

Que lindo que na ausência das pessoinhas que tanto me definem, eu consiga viver um pedaço de, espero, um recomeço... de verdade.

Ah, por certo, já falta bem menos tempo para eles voltarem!

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