Mamãe, você vai ficar na sala?

Quando a gente está para ter um filho, pensa em um milhão de desejos para nosso bebê: que seja feliz, que venha saudável, que seja bonzinho, que me deixe dormir (rs...), que seja bonitinho (sim, não adianta, a gente pensa isso sim), que goste de verdura, que viva em paz. A gente pensa nisso o tempo todo durante a gravidez e quando o filhote nasce, sentimos de uma só vez o tamanho da responsabilidade que nos espera. Surge aquele serzinho que depende da gente para tudo! Tudo! E, no tamanho do que podemos, conseguimos, claro, nos dedicamos de corpo e alma a esta função intensa e maravilhosa da maternidade, da paternidade... Não seria tão bom se a gente conseguisse mesmo controlar todos estes desejos? Que a gente pudesse mesmo com nossas ações alcançar este mundo de sonhos para nossos pequenos? 
Alguns, como o da verdura, por exemplo, a gente tem muita chance de fazer algo para conseguir, mas outros, como o da felicidade, a gente não tem. A gente vai batalhar todos os dias para que eles sejam felizes, mas... e quando eles não forem?

Meus filhos infelizmente passaram por situações em suas pequenas grandes vidas que já mostraram a eles que ser feliz não é tarefa fácil. Aprenderam que mesmo fazendo tudo certo, pode ser que a vida mostre um caminho muito árduo, muito cheio de espinhos, e que teremos que aguentar firme para poder nos reerguer e saber seguir em frente. Acreditando que voltaremos a nos encontrar com outros momentos bons de novo.

Quando meu pai foi preso, a minha família entrou em um período de dois anos muito, muito difíceis. Já falei muito disso e não é preciso repetir, pois o que quero dizer aqui hoje, é o quanto esse tipo de vivência é difícil de ser atravessada por uma criança. Eu sofri muito, mas sabia que meu pai era inocente, entendia, dentro do possível, as tramas que levaram a que ele vivesse aquela situação e acreditava, nem sempre com a mesma intensidade, mas sim, acreditava, que uma hora tudo ia passar. O tempo para uma criança é muito diferente, e quando eles ouvem da gente que "vai passar" o que eles querem saber e se vai passar já, agora, neste minuto, ou talvez, depois do almoço no máximo, e aí pronto, passou.

Mas o tempo demora bem mais para passar...

Depois que tudo parecia terminado, meu pai já em casa, a vida voltando ao normal, as viagens a Brasília encerradas, chegou a hora de ver como é que os filhotes iam ficar. Luismi foi o que mais demonstrou dificuldades e mudanças em seu comportamento depois deste processo, talvez por ser o caçula, mas vinha avançando a passos enormes desde a chegada de meu pai a São Paulo. Foi quando um dia 21 de julho a vida novamente colocou a confiança do meu filho à prova. O avô paterno faleceu, em meio a um processo muito triste envolvendo a viagem às pressas do pai, a ausência deste pai tão fundamental durante três semanas, a angústia de ter que pensar na morte...

Foi e está sendo muito duro para meu pequeno. Ele parece caminhar com passos firmes, mas que são dados bem devagarinho, para ver se nada vai cair quando ele pisar, e isso requer muita, muita paciência da minha parte e da parte do Miguel. No meio de tudo, de tantas formas diferentes que ele tem de nos pedir ajuda, onde mais ele nos mostra sua dor, e sua insegurança, é por meio das perguntas que faz... algumas delas são:

- Mamãe, você vai ficar na sala? (quando ele está indo dormir)
- É você que vai me buscar hoje na escola? (sou eu que busco todos, todos os dias)
- Papai, você e a Mamãe estarão em casa quando eu chegar da festa?
- Mamãe, essa noite você vai estar aqui?

São perguntas que doem na alma porque mostram a insegurança dele diante de fatos tão corriqueiros e tão cotidianos como o dormir, acordar, buscar, ir, vir... e a cada pergunta eu me pego pensando... "Luismi, você sabe a resposta! não preciso te falar!" e vez por outra acabou que o pensamento, meu e do Miguel escapou para esta resposta. E sabe o que Luismi nos falou sempre que tentamos ir pelo lado lógico? "É você que vai buscar né? Mas você pode falar, você mesma falar?". Como se ele acreditar não fosse suficiente, não fosse preencher o vazio que ele sente de medo do inesperado que vai surgir. É preciso ouvir da gente que sim, a gente vai estar lá quando ele chegar da festa.

Todo este processo é intenso e nos enche muitas vezes de um tanto de um mundo de preocupações. Mas logo em seguida penso no quanto ele está acompanhado, no tanto de amor que recebe dos avós e dos tios, no quanto a escola é parceira, no tamanho da atenção que as professoras sempre deram e dão ao que ele viveu e vive, e no tanto que ele continua sendo um amigo querido, um filho amoroso, um aluno dedicado, e consigo acreditar que ele vai conseguir superar isso tudo no tempo dele, no tempo de uma criança, no tempo da tranquilidade que ele vai buscar, uma e outra vez.

É por isso que da próxima vez que eu escutar de novo a pergunta, "Mamãe, você vai ficar na sala?" eu vou lembrar de que junto com a resposta "Sim, eu vou ficar, Luismi." estarei por dentro e com todos os meus gestos, e com os do Miguel, e até os da Paulinha, que tem se mostrado uma irmã da mais paciente e compreensiva com o momento do irmão, dizendo: "Luismi, pode confiar, a gente vai sempre estar na sala, sempre, sempre que você precisar.".

É o que esperamos, e que devemos continuar acreditando. Sempre.

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