Onde o Abuelito está agora, Mamãe?

Homenagem de Luismi a seu Abuelito

"Paulinha, Luismi, a Mamãe precisa conversar com vocês..."

Foi assim que eu comecei a conversa para contar aos meus filhos, com toda a dor do mundo, que o pai do pai deles, o Abuelito Miguel, tinha falecido ontem, dia 21 de julho, em Sevilha, na Espanha. Não posso contar as palavras que usei, nem o que eles disseram quando ouviram a notícia, porque nestes momentos o que mais me marcou foram os olhares e os abraços. Nos olhamos com muita tristeza, com olhos molhados e pequenos, e nos abraçamos muito. Nos beijamos e relembramos tudo de bom que tinham vivido com o avô espanhol. Meu colo aumentou para poder carregar meus filhotes já não tão pequeninos, para conseguir acalentá-los desde o lugar mais profundo e verdadeiro do meu coração.

"Onde o Abuelito está agora, Mamãe?"

Para o Abuelo, por Paulinha
Luismi me fez esta pergunta algum tempo depois, quando tudo indicava que ele não queria falar no assunto (não quis falar com o pai ao telefone, não contou nada aos meus pais e saía de perto quando Paulinha começava a chorar).

Eu não soube como responder ao meu filho, porque acredito em tantas coisas, mas em coisas tão minhas, e porque acredito profundamente que esta é uma resposta que cada ser humano precisa individualmente buscar na sua vida, a partir de suas próprias experiências... por isso eu disse que cada um precisa pensar no que acreditava, e que eu acredito que o Abuelito estava descansando, que estava bem agora. Luismi me olhou por um tempo enorme, baixou a cabeça e disse:

"Eu acho que ele está cuidando do Pelé agora"

Pelé foi o gatinho do Luismi que depois de apenas 15 dias conosco faleceu de uma doença grave, o que causou uma dor profunda em meu menino. Tudo aquilo que ele viveu agora voltava, me mostrando que ali estava meu Luismi, "cutucando" suas próprias vivências para encontrar sua própria explicação para uma dor tão grande. Logo depois ele misteriosamente não quis jogar "Labirinto" com a Paulinha e se fechou no quarto durante um longo tempo. Quando saiu trazia nas mãos o desenho que coloquei acima, dedicado a seu "Abuelito". "Só é uma pena que ele não vai ver né Mami? Ou vai ver...?" "Você acredita que ele vai ver, filho? Porque eu tenho certeza que onde ele está, ele vai ver o seu desenho e vai gostar muito.". Luismi sorriu, pegou um gibi e foi deitar no sofá.

Com a Paulinha foi tudo mais visceral. Muito choro, muito grito contido, muito desespero, e muita dor para fora do peito. E muito filha-de-Miruna, começou já a fazer perguntas sobre todo mundo... "E o Papai? como ele está? E a Abuelita? Quem vai cuidar dela agora?". E abraçou muito seus gatinhos, e naqueles abraços parecia que eles eram os dois únicos seres que podiam entender o que ela estava sentindo. E brigou muito, muito com o Luismi. Em uma das brigas ela começou a gritar tanto, e ele com ela, que eu e minha mãe ficamos apenas olhando, apenas contendo cada um, mas percebendo que lá ninguém tinha que se meter... eles gritavam um com o outro, diziam coisas... "Pára Luismi!" "Não gostei Paulinha!" mas era tão claro que eles não gritavam um com o outro, mas sim gritavam com a vida, com a injustiça e com a tristeza. 

Depois que Paulinha viu o desenho de Luismi decidiu que queria fazer um livrinho para o Abuelito. Deitou no chão e essas foram as palavras que ela escolheu...



"Era uma vez um abuelo que era muito feliz com seus netos Carmen, Paula, Maria e Luismi. Ele as levava para comer churros com chocolate, caracoles e outros. Um dia morreu, mas sempre lembraremos dele porque foi um bom abuelo. Homenagem ao abuelo. As pessoas sempre nascem e morrem mas sempre estarão conosco no coração."

Como mãe, sofro ao presenciar a dor de meus filhos. Como esposa, sinto uma dor profunda ao tentar imaginar a dor do meu amor Miguel, ainda mais com ele longe de nós. Como nora fico muito triste de não ter podido me despedir de um sogro tão amoroso e carinhoso, mas fico emocionada ao pensar em tudo o que ele conquistou ao longo de seus 81 anos de vida bela e plena. A morte de alguém querido machuca demais, mas como uma grande amiga me disse agora há pouco... não vai parar de doer, mas todos, em especial o Miguel, terão que se acostumar a sentir sempre uma saudade enorme daquela pessoa querida.

Miguel, vá em paz. Obrigada por tudo o que deixou nesta vida, por cada dia vivido com serenidade e bondade. Cada dia da nova vida de seu filho Miguel sem você certamente será uma homenagem ao grande pai que ele teve... 




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