"Mas é que lá tem um cheiro estranho..."
| Esperando o metrô |
Quando morávamos em Sevilha um dos maiores atrativos do nosso bairro era ser perto do centro. Andar pelo centro, estar no centro, conviver no centro, tudo isso sempre foi visto como algo que deixava nossa vida muito mais fácil e muito mais prática.
Em São Paulo a relação com o centro da cidade é um tanto diferente... eu sempre tentei me manter próxima de lá porque meu pai é um apaixonado por aquela região e na minha infância sempre fez questão de nos levar para andar pelas ruas perto da praça da Sé, ou subir no antigo prédio do Banespa para vermos a cidade enorme que ele tanto ama.
Com a Paulinha e o Luismi não sei se consigo cuidar de manter esta relação forte com este recanto da cidade, mas de uma forma ou de outra eles acabaram construindo uma sintonia intensa junto comigo com a rua 25 de março. Eu sempre amei ir para lá, passei muitos momentos importantes com as amigas da faculdade indo nas galerias e recantos daquela rua que parece não ter fim e foi lá na 25 onde consegui ir aos poucos me aproximando de minha irmã quando acabávamos de nos conhecer... ela vinha a São Paulo e pedia para ir à 25 e assim íamos construindo nossa relação.
| Paulinha com 8 meses |
Desde pequenos Paulinha e Luismi se acostumaram a ir à 25 de março, também, pudera, os dois foram pela primeira vez para lá antes mesmo de completar 1 ano. Claro, naqueles momentos eles iam bem rápido e não guardaram muitas lembranças, mas esse começo certamente fez parte de como foi se criando esta nossa história com a 25 de março. Com o tempo percebi que a relação começou a mudar, a ganhar outros contornos... o Luismi sempre se animava com as idas à 25 pelo fato de irmos de metrô, um meio de transporte que ele ama ainda hoje, mesmo quando está lotado... ele sempre está feliz dentro do trem que anda a tanta velocidade.
Pois bem, esta semana, em meio a uma gripe que me pegou de jeito, propus uma ida à 25 para comprarmos materiais para uma festa junina de um casal de amigos que iríamos no final de semana. Paulinha logo disse... "Ah, mas lá tem um cheiro estranho... não sei se quero ir... é meio sujo, tudo...". Eu conversei com ela que era verdade, que andar em um lugar aberto, com tanta gente, com tantas coisas, às vezes tem cheiros diferentes dos que os que a gente está acostumada, mas que ninguém vai nos lugares pelo cheiro. "Então a gente deixa de ir lá pelo cheiro Paulinha?" na hora ela me disse que era "impossível Mamis, não dá para não ir mais na 25!". E fomos.
O passeio todo foi como sempre uma delícia. Primeiro, eu com os dois, em uma rara tarde livre, já por si só era algo permeado de carinho. Depois, a rapidez com que chegamos lá. Em seguida, a montanha de opções que encontramos de enfeites e objetos para levarmos na nossa festa junina... e em meio a isso tudo fui observando meus pequenos, meus filhotes, que ainda que tivessem tido esta preguiça inicial, andavam tão bem, e tão soltos, naquele lugar com uma vida que lhe é própria. Sabiam onde e como segurar na minha mão, a hora de dar a volta nos camelôs, seguravam a sacola para mim e circulavam pelos corredores das lojas me ajudando a encontrar peixinhos de pescaria quando até o vendedor cansado de tanta festa junina nos dizia que estava tudo esgotado. Resultado do passeio, uma tarde linda, com cheiros mil, e com tanta coisa boa entre nós.
| Exposição da Magali na estação da Luz |
Na volta do metrô, na baldeação da estação da Luz, ainda fomos presenteados com uma exposição dos 50 anos da Magali e lá ficamos, os três, segurando varas de pescaria em uma mão, argolas na outra e peixinhos em várias sacolas, vendo desenhos e imagens lindas no meio da correria de uma estação de metrô da cidade de São Paulo.
Meus filhos são privilegiados, porque moram perto de onde estudam, que é perto da casa da Vó, que é perto da casa da amiga... eles têm a mãe que dirige e não precisam usar transporte público de forma habitual. Eles também circulam em espaços bem limpinhos e onde os cheiros parecem ser bem selecionados, mas em um dia como este na 25 de março eu me peguei pensando no quanto é preciso sempre irmos abrindo outras portas, outros caminhos, outras sacolas, e outros corredores, para que eles aprendam como é bom quando a gente consegue ir para além do cheiro estranho para conseguir alcançar uma tarde tão boa e tão cheia de São Paulo do começo ao fim.
E graças a tudo isso na festa junina teve pescaria e foi boa demais!
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