Papel higiênico e fita crepe

Parede da cantina estudantil
Desde que comecei o mestrado aqui na FAHCE, tem me chamado a atenção, para além das aulas, que são de uma qualidade impressionante, a estrutura física que aqui encontramos. A verdade é que meu pensamento tem ido muito para todos os lados possíveis, por isso não sei se conseguirei organizar tudo o que tenho pensado...

O que posso começar dizendo é que o espaço físico da Universidad de La Plata é muito, muito diferente do espaço de outras universidades públicas que conheço no Brasil. Assim, as salas têm muitas questões de infraestrutura, como cadeiras quebradas, luzes queimadas e janelas com pintura malfeita; os banheiros são de lamentável condição e os corredores são ocupados por objetos que muitas vezes, por seu estado, poderiam estar em qualquer lugar, menos em uma universidade. Descrevendo parece que estou dando excessiva importância para a estrutura física, mas quem esteve aqui sabe que realmente impressiona, porque são muitas, muitas mesmo as necessidades de manutenção e limpeza que vemos aqui.


Por outro lado, em meio a isso tudo, tenho visto todos os dias um efetivo, real, total e absoluto uso de um espaço público, mesmo, como um todo, e isso impressiona e muito. Os estudantes ocupam todos os espaços que podem, desde corredores, portas, salas e entradas, com cartazes, mesas, folhetos, até espaços próprios, como o CA e, pasmem, a cantina, totalmente organizada pelos estudantes (ah, o que poderíamos ter feito em nosso tempo de CA Paulo Freire se pudéssemos ter uma contribuição assim). E por todos os lados o que vemos são as mais diversas formas de expressão, desde cartazes com frases de impacto, como esta que coloco aqui, até propaganda política ou folhetos de festas universitárias... se vê um espaço vivo, em uso e apropriado por aqueles que o utilizam.

E a bem da verdade é que toda a lógica é pensada para o uso público e comunitário; nunca nos pediram qualquer comprovante de estudarmos na FAHCE, todos entram e saem livremente, recebemos avisos, nos indicam espaços, pedimos esclarecimento (são tantas as reinvidicações que sobre uma delas em especial, sobre Mariano Ferreyra, assassinado em um confronto trabalhista, senti necessidade de saber mais e consegui entender a questão conversando com um estudante) e tudo acontece dentro da maior naturalidade possível. E sem luxo. Vemos Mirta Castedo falando com brilho nos olhos sobre a investigação educativa e duas horas depois está com a fita crepe colando ela mesma a lista de alunos do seminário posterior, nos emocionamos com o cuidado e dedicação de Delia Lerner e depois a vemos chegar com a chave da classe, abrindo portas e acendendo luzes para começar suas exposições.
Sim, é verdade que alguns aspectos poderiam ter um maior investimento, estrutural, mas outros, muitos outros, nos ensinam que alguns valores não se medem por paredes pintadas e papel higiênico no banheiro, mas por sabedoria, respeito, proximidade e respeito ao outro e sobretudo por um total e absoluto comprometimento com a formação dos estudantes... ah, quanto temos por aprender...

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