Minha última semana santa em Sevilha

A primeira Semana Santa que vivi em Sevilha, em 2003, foi uma das mais chuvosas dos últimos tempos; choveu direto no domingo, segunda, e na terça, quando todos já estavam a ponto de perder a cabeça de desespero, apareceu um claro no céu e por fim um passo pôde fazer sua procissão até a Catedral sevilhana. Quando soube que um passo sairia, fui correndo vê-lo e me emocionei muito... era o passo da Hermandade do Dulce Nombre, La Bofetá, e ainda que naquele momento nem o conhecesse, foi a primeira vez que acompanhei o Migui, porque justo naquele instante ele estava embaixo do passo, vestido de costalero.
De lá para cá, muita coisa mudou e ainda sinto forte dentro de mim as emoções vividas nas minhas Semanas Santa vividas em Sevilha. O Migui mesmo teve que mudar muito sua forma de viver esta semana que ele espera durante todo o ano, primeiro no ano em que comecei sentir enjôos e não podia acompanha-lo estando grávida da Paulinha, depois quando ela era um bebê, depois quando estávamos com a pequenina e o nosso Luismi na minha barrigona de 6 meses e nesse ano, quando estávamos com duas crianças de um lado para o outro.
Aos poucos ele foi se adaptando, os pequenos também, e eu fui pouco a pouco assimilando e encontrando meus próprios sentimentos dentro desta semana santa que é tão dos sevilhanos: surgiu um passo de Virgem que sempre me emociona, o todo branco de La Paz, veio a emoção de sair em procissão com os pequenos no passo da Bofetá, a intuição de querer acompanhar o passo da Carreteria, impressionantemente enorme para ser carregado por nucas humanas, a beleza de ver procissões na minha "ponte preferida", a de Triana. Mas entre todas as emoções, a mais forte e a mais intensa é a de ver e acompanhar meu marido vestido de costalero.
Não sei explicar o que sinto quando o vejo assim, parte total e imprescindível da procissão: uma mistura de alegria, emoção, atração e orgulho, muito orgulho. Nos dias em que ele sai sempre tento estar aí quando ele troca com um companheiro para descansar, e quando o vejo sair debaixo do passo e abrir um sorriso ao ver-me ali esperando-o para acompanhar-lhe um pouco , sinto que valeu a pena. É engraçado porque acho que ele está muito lindo vestido de costalero, com essa roupa toda apertada, meio enfaixado, meio fantasiado, e justo quando ele está vestido assim, não tem nada de muitos beijinhos, carinhos e abraços, como ele mesmo dia, "não combina".
Mas tanto faz, me senti sempre feliz em acompanhá-lo nestes momentos e me senti sempre muito orgulhosa de estar casada com um costalero. E é assim como sempre me sentirei. É uma grande emoção ver aquele passo, aquele andor tão enorme andando por Sevilha e saber que meu marido é um dos que está suando lá embaixo para que aquilo seja realidade. E o mais bonito é que a Paulinha mesmo já conseguiu expressar este ano este mesmo orgulho, indo de um lado para o outro, perguntando "Cadê Papai costalero?" e indo correr aos seus braços quando o via sair do passo.
Neste último sábado foi a última vez que vi o meu Migui vestido de costalero. Chorei quando vi um passo com ele embaixo por última vez e chorei, e muito, quando nos despedimos, porque sabia que não o veria mais assim e que isso será algo do qual recordarei com saudade sempre. Algumas imagens não se apagam de nossa mente nunca, e este ano tenho algumas mais para esta coleção. Nunca esquecerei a imagem da Paulinha correndo sorrindo, quase gargalhando, aos braços do pai recém saído do passo, com seu costal na cabeça, lembrarei sempre da entrada do passo da Bofetá ao som de "Costalero soberano", e não esquecerei a imagem do meu Migui andando, vestido de costalero, na última vez que o vi assim.
Sei que ele se foi sem olhar para trás porque sabia que eu estava chorando e não queria chorar junto. Juntos nos emocionamos sabendo da importância daquele momento, lembrando e recordando todos os relevos (os momentos de descanso) vividos juntos e apesar de uma etapa ter terminado, sabemos que as emoções e os sentimentos tão bonitos que vivemos nesta e nas outras semanas santas, estarão sempre, sempre conosco.

Comentarios

Dedeflavor ha dicho que…
lindo o texto, minkins...
e vocês vão achar coisas de vocês dois aqui também...
amo!

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