Tempurá e moti


E a vida quis que fosse assim. Minha Batchan se foi, três meses depois de perdemos nosso Ditchan. Diferente dele, que decidiu ir com bastante certeza, desta vez foi diferente, foi preciso muito tempo até que ela aceitasse cortar de vez esse fiozinho que a conectava aqui com o nosso mundo. "Mamis, acho que você precisa ajudá-la a conseguir descansar", eu disse para minha mãe, e ela corajosamente conseguiu dizer algumas vezes para a mãe dela, ao pé do ouvido, que era hora de descansar, que estava tudo bem. Desta vez todos nós sofremos com o sofrimento da minha avó, e sabíamos que estava chegando a hora de despedida, mas mesmo assim, naquele momento em que a notícia chega, a dor é muito, muito profunda.

Há muitos anos eu não ouvia mais a voz de minha avó, mas carrego dentro de mim muitas marcas da presença dela em quem sou, e no que eu vivi. Quando eu nasci, há 40 anos atrás, minha mãe teve depressão pós-parto e não conseguiu em um primeiro momento cuidar de mim. Eu era uma bebê recém-nascida, minha mãe que tanto me queria precisava cuidar dela mesma, e meu pai, ainda recente na ideia de abraçar a paternidade, precisava saber como enfrentar a situação. Foi quando minha avó sugeriu que eu fosse ficar com ela, até que tudo melhorasse. Neste grande e compreensível gesto me parece que muito da minha vida se definiu, porque apesar de eu não ter ido ficar com minha avó, eu sempre achei que a entrada dela na situação fez com que meu pai assumisse de vez a paternidade e com isso me mantivesse ali, coladinha na minha mãe, e ajudasse a trazê-la de volta para nossa família.
E minha mãe voltou para nós. E minha vó ficou sendo "só" minha Batchan mesmo, ela na casa dela, e eu na minha, com meus pais. E eu... eu sempre levei dentro de mim esse pensamento, do que teria sido de mim se eu tivesse ido ficar com ela. Será que eu teria ficado muito tempo? Será que eu teria voltado? Será que eu teria aprendido a falar japonês? Será que eu ia reconstituir o lugar da minha mãe? E onde eu estaria quando o Nanan nasceu? Eu nunca vou saber. 

Ao longo da minha vida acabei não construindo uma relação com minha avó que fosse retrato deste meu começo de vida, eu fui sempre mais uma neta, uma neta amada, mas mais uma dentro dos 12 netos dela, e toda minha lembrança é dela ser bem avó mesmo, que fazia umas comidas muito gostosas e ainda costurava meus vestidos de festa junina da escola. O tempurá da minha avó vai ficar sempre em minha lembrança com um sabor que nenhum restaurante, do melhor que exista, vai conseguir reproduzir, e na minha memória tenho a imagem daquelas mãozinhas já enrugadinhas, tão parecida com as mãos da minha mãe hoje, misturando as verduras e a massa, e fritando aquelas delícias. O moti feito por ela também será sempre uma lembrança especial, ela e meu avô, meu Ditchan, em perfeita sintonia amassando o arroz no pilão e preparando aqueles bolinhos que eu tanto amava.

Agora que minha Batchan se foi o que fica dentro de mim é a lembrança de uma vontade que sempre senti ao longo de vida, de perguntar o quanto ela queria mesmo me levar para cuidar, com apenas algumas semanas de vida, ou o quanto ela sabia que oferecendo aquele cuidado, acabaria devolvendo meus pais para mim. Nunca falei disso com ela, até porque nunca consegui estabelecer uma relação pela conversa, foi muito mais pela vivência e pela experiência, mas dentro de mim carrego essa marca, a marca da entrada dela quando eu nasci, e de todas as coisas que aconteceram comigo e que me marcaram, depois do meu nascimento.

Minha avó se foi, três meses depois de meu avô. Minha família Kayano perde a base, Ditchan e Batchan, Keiji e Hiroko, e vamos ter que nos acostumar a esta nova fase. Uma vez mais não pude abraçar minha mãe, minhas tias e tios, primas e primos, mas busco nas palavras, nas fotos recolhidas de tudo o que vivemos juntos, a forma de fazer este carinho imenso que circula entre nós, não ficar parado dentro do isolamento que tanto nos machuca em momentos assim... obrigada minha querida Batchan, por tudo o que fez por mim e por nossa família, por tudo o que batalhou e construiu, por cada gesto e cada cuidado. Descanse em paz e leve contigo o tempurá que vai acompanhar o brinde de sakê do Ditchan aí onde vocês estão agora.

Mamãe, eu te amo, estou contigo, sempre.

Comentarios

rosmaninho_2@alumni.usp.br ha dicho que…
Miruna, sempre lindas palavras, hábeis, comoventes, sábias. Agora, tocam meu "chão da Alma" (Mia Couto, apud Edmara) com uma vontade de avô, vontade de avó , aqueles que nunca cheguei a conhecer. Tenho inveja de você. Ainda assim, estão aí, os meus, e são 4: América, Tonho, Tonico e Vivi. Creio que estão no mesmo lugar onde estão os seus. De lá, continuam a construir a nossa coragem, nos dão força, princípios, valores, amor... São eternos!

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